24 de nov de 2017

Capeta´s business

Nos anos setenta todo mundo era “ocultista”.
Encontravam mensagens subliminares nas letras, nas músicas... E em alguns casos, se rodassem os discos para trás as mensagens eram diretas.
Veio o Black Sabbath e escancarou a coisa.
De ocultistas, passaram a satanistas.
Segundo Ozzy em seu livro I`m Ozzy (Eu sou Ozzy, Ed, Benvirá/2010) a intenção era levar para a música o clima dos filmes de terror que tanto faziam sucesso à época, e como no primeiro disco a coisa deu certo, continuaram a fazer “música de terror”.
E Tony Iommi no seu Iron Man (Iron Man, minha jornada com o Black Sabbath, Ed, Planeta do Brasil/2013) quando foi necessária a troca do letrista principal (Geezer Butler) os novos parceiros nas composições já chegavam com a ideia de que sendo o Black Sabbath, fazer as letras era só sair falando do cramulhão e pronto.
Outros vieram na esteira e muitos pegaram a fama sem merecer, caso do Kiss. Chegou-se a dizer que o nome da banda era uma abreviação para Kids in Service of Satan.
Pura besteira.

Mais a frente o tal rock capetista veio a ter outros representantes que usavam o teatrinho para causar espantos, chocar bobinhos, impressionar fãs e, claro, vender discos.
O Venom com suas letras explicitas e o Slayer encabeçam a lista.
O primeiro era realmente difícil levar a sério, mas uma olhada no visual dos caras do Slayer e as pessoas realmente ficavam com dúvidas.
Mas elas logo acabavam quando se lia alguma entrevista da banda e seu cantor Tom Araya se dizia católico praticante e tudo o mais.
Para os que duvidavam das palavras escritas, o documentário Metal, uma jornada pelo mundo do heavy metal (Metal, headbanger´s journey de Sam Dumm e Scott McFayden/2005) disponível no Netflix, joga a pá de cal no assunto quando o entrevistador pergunta a Araya sobre a letra de God Hate Us All (Deus odeia todos nós) e pergunta se ele realmente pensa daquela forma.
A resposta?
“-Não! Deus não nos odeia, ele nos ama, mas convenhamos... Este é um grande título não?”.

Agora, já em 2015, o artifício continua sendo usado por N grupos de rock.
Uns mais pesados, outros mais leves... Uns de caras limpas, outros mascarados...
Mas se fosse para escolher um nome que estivesse levando o “modus operandi” do Black Sabbath ao status de arte e dar um troféu, este seria o Ghost.
Tão satânico quando o romantismo alemão do início do século XIX na literatura, mas embalados em peso com melodias sensacionais.
E vendendo muito, o que prova que o capeta nunca sai de moda.

22 de nov de 2017

F1: Agora é melhor não ter ninguém - ou - O legado brasileiro

Assim que Felipe Massa descer sair do carro em Abu Dhabi (seja após a corrida ou durante, vai saber...) uma era vai se encerrar.
Desde que Emerson estreou na F1, nunca deixamos de ter ao menos um piloto durante as temporadas seguintes.
Protagonistas, coadjuvantes ou simples figurantes, sempre havia um “candidato a próximo Senna” na pista.
Não para os amantes da categoria, que conhece os meandros da competição e disputa e não se engana com o ufanismo meio bobo que a emissora oficial imprimia às suas chamadas e transmissões. Mas enfim...

Provavelmente voltaremos a ter um representante no grid e já em 2019...
As apostas mais seguras seriam Sérgio Sette Câmara, que está na F2 e o neto de Emerson Fitipaldi, Pietro, que conta com o sobrenome poderoso.
Talento?
Ambos têm, mas se é para a F1 aí já é uma outra história...
Mas... Se chegarem até a F1 como se espera dos dois, valeria a pena?
Vale a pena ter pilotos no grid apenas para fazer número e não peso?
Vale a pena, para o torcedor, entenda, ter pilotos brasileiros apenas para fechar grid e andar em carros sem nenhuma esperança de sucesso a médio prazo? Contando com a sorte de fazer uma ou duas corridas excepcionais e chamar a atenção de times de meio de grid?
Já foi dito varias vezes que o torcedor comum (de padaria) não gosta de F1, mas de vitórias e isto é muito fácil de se constatar pela quantidade incrível de chorume postada nas redes sociais em dias de corrida.
Quando é a vez do GP do Brasil então, fica quase insuportável ler comentários nos portais de automobilismo e sites de notícia.
“-Bom era no tempo do Senna.”, ou, “-A F1 acabou quando Senna morreu.”.
E ainda a minha preferida: “-Como Senna não vai ter outro.”.
Ainda bem... Entendam como quiser.
Mas, ao menos por enquanto, é bom e vantajoso apenas para os pilotos estarem na F1, para a torcida nem tanto.
Para não ser radical logo e dizer que é até melhor não ter nome nenhum...
Isto pensando em nomes muito fortes como Charles Leclerc, que dominou com mão de ferro a F2 e vai correr 2018 pela cadeira elétrica da Sauber.
Ok, ele é piloto Ferrari e está no time suíço apenas para acumular rodagem, mas é muito mais fácil queimar uma imagem que construí-la.
É capaz de ser eclipsado por Pierre Gasly ou mesmo Antônio Giovinazi, que podem até não ter o mesmo talento nato, mas estarão em assentos bem mais competitivos.

Mas o Brasil não vai se despedir da F1 sem deixar um legado... Além dos três pilotos campeões mundiais há também gente da estirpe de Barrichello, apesar de toda a zoação, Felipe Massa, heróis como Roberto Puppo Moreno, José Carlos Pace, Wilson Fitipaldi...
Todos patrimônios da história da F1 como um todo.
Mas, de imediato, o legado mais visível será o aumento do preço dos seguros de vida para pilotos de F1, já que Massa sai das pistas para dar lugar à Robert Kubica.
Entenda, novamente, como quiser.

20 de nov de 2017

Brasileiros que poderiam estar na F1 em 2018

Reginaldo Troiano:
Nascido em Goiânia-GO, começou no automobilismo aos cinco anos pilotando um triciclo velotrol. Ousado, foi o primeiro a fazer curvas apenas em duas rodas.
As outras crianças de sua idade choravam ao vê-lo ganhando todas as corridas.
Pilotou bicicletas e fazia o menor tempo no circuito de entregas de jornal de seu bairro.
Aos quinze debutou no kart; fez carreira rapidamente sendo campeão já em seu primeiro ano.
Passou aos Fuscas e depois para os carros de formula.
Seu sonho? Claro... Um dia chegar a F1.
Em 2015, dias antes de embarcar para a Europa morreu em um acidente quando o Ford Belina que dirigia bateu na traseira de um caminhão com placas de João Pessoa - PB.

Luca Dabreu Cunha.
Este nasceu em Minas Gerais e não se sabe o que fazia em termos de pilotagem na infância.
Os primeiros registros datam de sua adolescência.
Campeão de “rachas” em torno da Lagoa da Pampulha e de tanto tomar multas com os carros do pai foi matriculado em uma escolinha de pilotagem em São Paulo.
Foi notado pelos pilotos professores que enxergaram nele um grande talento.
Levado a competir por todo o país logo foi contratado por uma equipe de carros de turismo européia.
Resolveu então voltar a Minas dirigindo seu VW Passat para dar aos parentes a boa noticia do contrato para correr no velho continente.
Infelizmente em 2015 colidiu seu carro com a traseira de um caminhão registrado com placas de João Pessoa – PB em plena rodovia Fernão Dias.

Leonardo Bulca Jr.
Vulgo “Bulcão”, oriundo do Rio de Janeiro.
Campeão em todas as categorias em que esteve inscrito despontou para o cenário nacional após vencer uma etapa do rali da Independência.
Levado para fazer testes em equipes da antiga categoria de Opalas Stock Car.
Tinha um estilo selvagem que muita gente chegou a comparar com Gilles Villeneuve. Com um tanto de exagero, obvio.
Convidado a participar de uma das etapas do campeonato da Le Mans Series por uma equipe satélite da Peugeot, comemorou fazendo o trajeto entre São Paulo e Rio de Janeiro em apenas quatro horas pela Via Dutra batendo assim dois recordes: de velocidade e de quantidade de multas por excesso de velocidade em rodovia.
Na volta foi impedido de dirigir – estava com a carteira apreendida – viajou o tempo todo dormindo no banco do carona de uma Mercedes 280 SL que infelizmente se acidentou com a traseira de um caminhão com placas de João Pessoa - PB.
Tinha vinte e oito anos em 2015...

João Jose Olivensa:
Conhecido como Jãosé.
Nunca aspirou ser piloto de competição e nem teve sua vida ligada aos carros.
Quando criança ajudava seu pai em uma oficina de marcenaria em Goiânia.
Com a crise mudou-se para Minas Gerais onde trabalhou como ofice boy por dois anos.
Em 2015, depois de casar-se foi tentar a sorte no Rio de Janeiro, desempregado aceitou a única oportunidade que lhe foi oferecida.
Tornou-se então motorista de caminhão de uma empresa sediada na Paraíba - mais precisamente em João Pessoa - e com escritório e representação carioca.

17 de nov de 2017

Combustível para o fogo

O ambiente pesado – como convém a um velório – só foi quebrado devido à chegada de amigos mais íntimos do morto.
-Cirrose? – perguntou um à viúva.
-Falência múltipla dos órgãos. – respondeu ela entre prantos.
-Cirrose... – vaticinaram os outros amigos.

Silveira era a alegria das festas. Com ele o riso era garantido não importando o que fizesse para extraí-lo das pessoas.
Cheio de surpresas e histórias costumava agregar os amigos a elas sem nenhum aviso.
Turbinava-se com litros e litros de destilados e fermentados.
-Era um cu de cana. – disse outro à viúva que corou.
-Bebia só um pouco.  – tentou consertar um parente não muito próximo.
-A cada dez minutos sim: ai bebia um pouco... – todos tentaram em vão segurar o riso.

-E naquela festa da firma? – alguém lembrou.
-Quando se fantasiou de Papai Noel, mas esqueceu de por as calças?
-Sim... – e os risos foram abafados, mas espontâneos.
-Quando foi alertado que estava sem as calças ele se saiu muito bem...
-Foi, foi... Disse: “-Acho então que ninguém vai querer pegar os presentes no saco!”.
-Coisas da bebida...
-Era um cu de cana...
E todos assentiram com a cabeça diante da viúva ainda mais corada.

-Aquele dia quando pulou o balcão da padaria para se servir, lembram?
-Claro... Um cliente chegou dizendo que queria comer um americano com coca-cola.
-É e o safado disse que o Almeida não era americano, mas sabia falar inglês muito bem...
-O Almeida não achou graça...
-Não. Mas curiosamente foi visto com o cara da padaria várias vezes depois...
-Mas o Silveira sempre que podia dizia que o Almeida não era viado.
-Verdade... Mas quando enchia a cara falava que o Almeida era uma lésbica vestida de homem full time.
-Era um cu de cana...

Enfim, o velório vai chegando ao fim e começam os procedimentos para a cremação.
Todos confortam a viúva que a estas horas já anseia pelo fim da cerimônia. Quanto antes se livrar dos amigos do marido, melhor.
-Bem... Lá se vai ele. Esta é a única festa em que ele não apresenta nenhuma surpresa ou brincadeira.
-Verdade, se bem que um velório não é uma festa propriamente dita.
-Com o Silveira era... Ô se era...
-Por que ele escolheu ser cremado? – alguém perguntou à viúva.
-Ele disse que era para que tudo fosse bem rápido. – respondeu.
Todos concordaram.
Porém quando o corpo foi colocado dentro da pira crematória, estranhamente uma bola de fogo surgiu como se algo muito inflamável fosse atirado às chamas de repente. Talvez alguém tenha se descuidado com algo ou deixado algum produto inflamável perto demais...
Para espanto geral, apenas a viúva se pronunciou: “-Era mesmo um cu de cana... Ai o resultado.”.
Todos concordaram.

14 de nov de 2017

Futuro do Brasil na F1: Vale a pena sonhar em chegar lá?

Pela primeira vez desde que Emerson Fitipaldi estreou na F1, o Brasil vai ficar sem um piloto que o represente no grid.
Pode-se falar que a “culpa” é da falta de categorias de base no país, que há um desinteresse geral pelo automobilismo de competição e outras mil coisas.
Sim! E estas mil coisas podem e devem estar certas.
Automobilismo é um esporte caro e extremamente injusto sobretudo a F1: melhores pilotos dificilmente, raramente, quase nunca vão ganhar dos melhores carros.
E melhores carros nem sempre vão ter os melhores pilotos ao volante.
Ainda assim vencerão provas e campeonatos, porque é assim que é e mais: isto explica Button, Rosberg (pai e filho), Damon Hill, Jaques Villeneuve, Scheckter e Alan Jones com títulos mundiais na F1.

O caminho para o piloto até a F1 é difícil (e caro).
E se for brasileiro a percorrer este caminho, vai ser muito mais difícil (e muito mais caro).
Sair dos karts (que já é caro), passar por competições nacionais sem grande visibilidade de público, (e caras), sem retorno financeiro. Só investimento.
Se não tiver um “paitrocinio” como tinha Senna (que tinha talento, não apedrejem) tem de correr atrás de patrocínio real e aí começa o suplício.
Para empresas privadas investir em algo que alcança apenas um público restrito aos autódromos e que não tem espaço na mídia é considerado (não sem razão) jogar dinheiro fora.
Se não for bem relacionado, fica difícil. Para não dizer impossível.
Só sendo um ‘lance Stroll” da vida...
Assim, conseguir assento nas categorias que podem dar acesso à F1, como os campeonatos de monopostos ingleses ou as fórmulas com chancela da FIA (F3, F2 e algumas outras) se torna quase inalcançável.
Outra forma é fazer parte dos programas de formação de pilotos como os da Ferrari ou da Red Bull.
Nestes, ou se tem bastante talento ou um “quem indica” com muito prestigio.

Mas digamos que o piloto consiga passar por tudo isto e andar bem, não ser um assombro como Charles Leclerc, mas disputar dignamente as categorias de entrada e se colocar em evidencia o suficiente para que um time da F1 o veja e se interesse.
Muito dificilmente será uma equipe de ponta e quase certeza, será um destes times fecha grid onde o cara vai ter que ralar muito, aparecer pouco (e trazer grana, não esqueça) e ainda correr o risco de virar piada para os “torcedores de padaria” para quem a F1 boa era “no tempo do Senna”.
Vale a pena?
Para ajudar a responder, pense no próprio Leclerc citado acima: Dominou a F2 de forma avassaladora, faz parte da academia da Ferrari, salvo engano, mas vai dirigir para a Sauber em 2018 e se não ocorrer um milagre com a equipe, vai amargar as últimas posições e acabar assim tendo mais chances de sucumbir do que de dominar o mundo.
Se pode ser difícil para ele, imagina para os próximos brasileiros...