28 de mar de 2017

F1 2017 - Os que estão de volta

Além da F1, obviamente, mais coisas voltaram este fim de semana na Austrália.
Uma delas foi a alegria e a simpatia de Vettel.
Quem não se lembra que em 2016 o rapaz, que enquanto ganhava suas corridas e enfileirava títulos mundiais era todo sorrisos e quando começou a tomar pau do companheiro de equipe (Ricciardo) e depois ser engolido (por Kimi em 2016) ficou num azedume de dar inveja em limão.
Reclamava de retardatários, de pilotos que mesmo disputando posição não lhe davam mole, das bandeiras azuis, das amarelas, das regras de track limit, da brita, dos pneus, das estratégias de equipe e até da agua gelada no padock...
Foi só voltar a ser competitivo e vencer uma corrida – com propriedade – sobre Lewis e sua Mercedes e pronto: nem reclamações pela dificuldade absurda de se ultrapassar uma fila de retardatários na parte final da corrida, quando defendia sua posição (ma non tropo) teve.
E ao sair do carro ainda cumprimentou efusivamente os mecânicos, o público e até os adversários.
Vitória é mesmo o elixir da felicidade.

Outra volta que foi bacana é a dos pneus traseiros largões...
É esteticamente fantástico!
Os carros ficaram brutais, invocados... Mas algo deu meio que errado.
Os pneus são quase eternos, gastam pouquíssimo e se não fosse a obrigatoriedade de ao menos uma troca era bem possível que alguém conseguisse chegar ao fim da prova com o mesmo pneu da largada.
Também voltaram as dificuldades enormes em se conseguir uma ultrapassagem.
Até mesmo sobre retardatários a dificuldade aparecia.
Talvez seja um problema mais grava na Austrália, talvez não... A pressão aerodinâmica e a turbulência gerada sobre o carro de trás realmente atrapalha e não houve aproximação suficiente (em momento algum, em briga alguma) para que a solução do DRS fizesse efeito como nos anos anteriores e facilitasse os passões.

E com a dificuldade e rareamento das ultrapassagens voltaram também os chatos que querem ficar comparando F1 com tosquices como Indy, Nascar e outras...
Curiosamente são os mesmos que adoram dizer que gostam de corridas de endurance que não tem ultrapassagem valendo posição de verdade em quase vinte e duas horas de corrida...

Ah! E a volta principal (ou a volta do que não foi...) foi de Felipe Massa que mesmo estando motivado para caramba e confiante na evolução que o carro da Williams já teve e terá, voltou a seu lugar cativo e terminou a prova em sexto lugar.
Se continuar assim, melhor trocar o nome da posição.
Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, Massa (independente de quem ocupar), sétimo, oitavo e assim por diante...

26 de mar de 2017

F1 2017: corrida - A F1 voltou, diferente, mas voltou

A ansiedade para o início de uma temporada é sempre grande.
Tão grande que adoramos a pista do parque de Melbourne que nem é tudo isto.
Pista lisa demais, traçado único.... Não dá para ter muita ideia sobre o que o campeonato nos reserva.
Obviamente que seu vencedor pode - e vai -  vencer novamente durante o ano, mas se há um lugar onde uma zebra pode pintar, este lugar é a Austrália.
Dito isto, não esperemos ver todas as mudanças de regra, de construção de carro, a dança das cadeiras surtindo efeito.
Esperava-se carros até cinco segundos mais rápidos e esta velocidade não apareceu.
Sem problema: é só a abertura.
A única coisa que se é capaz de afirmar é que a Williams acertou em chamar de volta Felipe Massa para conduzir a evolução do carro. Lance, por melhor que possa ser, ainda é verde (cor dos dólares que trouxe).
O resto, só a sequência da competição vai mostrar.

Na classificação deu Hamilton, mas não com tanta folga e com um Vettel motivadão logo atrás.
Bottas terceiro e Kimi na cola.
A largada prometia.
Tanto que foi abortada.
Uma volta a menos, outro giro de instalação e desta vez foi para valer.
E quando valeu, as quatro primeiras posições permaneceram inalteradas.
E assim seguiu até a parada de boxes.
Igual? Não... Vettel comboiou de forma até fácil o carro de Hamilton que não conseguiu abrir o oceano de vantagem que tinha no ano passado.
Emoção? Uma Haas pegou fogo. Logo com Grosjean...

E Hamilton veio aos boxes enquanto Vettel ficou nas pistas sentando a bota e baixando o tempo de volta.
Desenhava-se ali o “undercut”, algo que outro alemão fazia com maestria com este mesmo carro vermelho.
E para ajudar, Hamilton ficou atrás de Verstappen, que já é naturalmente difícil de ser ultrapassado, com esta configuração de carro deste ano então, pior.
Na volta vinte e quatro Vettel foi aos boxes e voltou a frente de Verstappen que segurava Hamilton: undercut efetuado com sucesso.
A vitória sorria para Vettel e Hamilton só diminuía a distância entre eles quando havia retardatários à frente.

Vettel esteve perfeito o tempo todo enquanto Hamilton por várias vezes tomava tempo de Bottas.
E assim, venceu fácil.
Se é a tônica da temporada não se sabe, como disse: Austrália não mostra tanto assim.
Mas que foi divertido ver uma Mercedes tomar dez segundos no fim da prova, isto foi.
A F1 voltou.

23 de mar de 2017

F1 2017: A paixão que se renova

A cada fim de temporada pensamos que já deu...  Equipes dominantes, pilotos que ganham sempre, algumas corridas maçantes... Mas é só se aproximar a primeira corrida do ano e a paixão se renova como fogo alimentado com gasolina.
F1 é pra quem ama, não pra quem quer emoção a qualquer custo.
Por isto escrevi este texto, por isto o republico: porque a paixão se renovou.
Vem temporada, estamos prontos.

Quando inventaram as corridas.

-Quando foi mesmo que inventaram as corridas de carro?

-Foi quando terminaram de construir o segundo carro.
Deve ter sido isto mesmo.
Assim que o segundo carro ficou pronto, que foi apertado seu ultimo parafuso alguém deve ter tido a brilhante idéia: “-Vamos ver qual dos dois anda mais rápido? ”.
E o cara que estava dando uma limpadela no primeiro carro construído pensou: “-Ora! Porque não? ”.
Alinharam as carroças sem cavalo, pediram para que alguém, muito provavelmente um garoto que frequentava a oficina, avisar quando eles poderiam começar.
O moleque então pega um pano sujo de graxa, se posta entre os dois bólidos e avisa:
“-Quando o pano aqui cair no chão vocês saem, ok? ”.
Os dois concordam.
Arrumam-se nos bancos com os motores devidamente ligados. Lembre-se que pra dar a partida nos primeiros carros era preciso girar uma manivela que ficava embaixo do pára-choque.
O menino então solta o pano, que pesado de graxa cai rapidamente.
Dirão os maldosos que o pano caiu muito mais rápido do que os carros conseguiram largar. Maldade sim, mas não exagero.
Na verdade, o guri ainda teve tempo de abaixar e pegar de volta o paninho antes que os carros se movessem.
Mas se moveram e alcançaram a velocidade máxima de exorbitantes 28 quilômetros por hora!
Então o piloto do primeiro carro chega à frente para contornar a primeira curva, por questão de segurança diminui o ritmo.
Por loucura ou por descuido, o piloto do segundo carro não diminui. Faz a curva com o carro de lado, nos mesmo vinte e oito quilômetros por hora que vinha.
A poeira sobe e encobre os dois. Quando desce a nuvem de pó já estão de novo em linha reta e o segundo carro agora lidera e vai aumentar a diferença de espaço a cada curva.
Eis o primeiro piloto, em contraste com o primeiro motorista.
Só que aquele garoto que deu a partida para a primeira corrida e assistiu tudo prendendo a respiração a cada curva do primeiro piloto começou a pensar que aquilo sim era diversão.
E que ele poderia fazer melhor.
Quando não estava trabalhando na limpeza das ferramentas ou da própria oficina sentava-se no banco de um dos carros e fantasiava estar pilotando, mas não aos prosaicos vinte e oito quilômetros.
Em sua fantasia ele ia a cem, duzentos, quem sabe trezentos quilômetros por hora...
“-Não.... Trezentos não...”. - ele pensa. – “-Nunca uma maquina vai se mover a trezentos quilômetros por hora. Mas e se existir uma maquina que chegue a isto? Como doma-la? Até onde pisar no pedal do acelerador? Por quanto tempo segurar o pedal sem aliviar? Quando aliviar? E o quanto aliviar? Pisar no freio?”.
Mas ele tem de esperar por sua vez de comandar uma maquina daquelas.
Alguns anos depois a chance aparece.
Ele está mais velho e o carro agora é muito mais veloz. Já alcança os cento e cinqüenta quilômetros por hora em curvas. Na reta com um pouco de coragem chega aos duzentos.
Então ele se senta. Esperou muito por isto, não vai perder a chance.
Liga a maquina e sai. Não são os trezentos quilômetros por hora de seus devaneios, mas que diabos, quem liga?
 Ele a doma com a ponta dos dedos. Pisa no acelerador até encostá-lo no assoalho do carro, segura o pé no fundo até se aproximar o máximo e o mais rápido possível da curva e só então alivia. Pouco.
Apenas toca no freio, o suficiente para que o carro contorne a curva no trajeto e com segurança.
E pensa nisto tudo enquanto o carro se movimenta. Tudo ao mesmo tempo.
Eis o primeiro fora de série.
Logo aparecem mais construtores de carro, mais pilotos.
Só alguns são fora de série. Muitos são apenas motoristas. Todos querem correr. Todos querem ser os melhores.
Eis o primeiro campeonato.
E é assim até hoje.
Que venham as emoções desta temporada. Que apareçam mais moleques de oficina.
Estamos prontos.

20 de mar de 2017

F1 2017: Enquanto isto em Pyongyang

Neste domingo (19/03/2017) a Coreia do Norte fez mais um teste com motores de foguete de alta potência.
O líder daquele pais, Kin Jong-un diz que os testes são um avanço para o programa espacial coreano.
O resto do mundo (com exceção da Rússia) enxerga os testes como pressão e ostentação de equipamento para montagem de um arsenal atômico de longo alcance.
Pelas notícias – nada manipuladas... – vindas de Pyongyang, os testes foram um sucesso.
Enquanto comemorava junto com seu alto escalão, o baixinho invocado sente tocar no seu bolso seu telefone celular modelo sangsunga galaxie nota7 red edition, que é a versão coreana do norte para o explosivo modelo da gigante do país vizinho.

-Arô!
-Quien habla?
-Pala onde você ligou?
-Quiero hablar con el Kin Jong
-Da parte de quem?
-Un amigo….
-Que amigo?
-No importa, mas és lo seguinte: Yo sei una forma para que usted tenha um pouco mais de boa vontade da parte de la ONU e sus aliados.
-Non me intelessa...
-Escucha.... No custa nada.
-Ok, fala.
-No hay nada que el Pueblo del ocidente goste más que uno governo que apoia e ayuda el desporto. 
-Sou todo ouvido, em flente...
-Las personas tiene tendências a esquecer muita coisa quando vê que alguén odiado está mexendo com desportos... Mira em Brazil... Uno futebolista de lá cometeu uno crime bárbaro, hediondo, nojento e foi só ser posto em lá rua que já tiene clube para jugar e de novo tem até fãs... Entendes?
-Hum... E o que sugele?
-Yo li el periódico que hablava que usteds haceram unos testes com motores de alta potência... És verdad?
-Sim, um sucesso!
-Que tal enton fornecer unas unidades de estos propulsores à una cierta equipa de coches desportivos? Una que tiene como su principal conductor uno piloto duas veces campeón del mundo e que és muy guapo...
-Hum... Sei qual é! É uma ideia bem plomissola... Vamos falar com nosso fornecedor e entlamos em contato com eles.
-Isto! Só por curiosidad: quien são tus fornecedores?
-Honda, né!
-Ah és? Enton não precisa mandar nada não... Esquiece. E vê se para de mentir... Sucesso, sei...
E desliga o telefone.

17 de mar de 2017

Um dia quente

Desde que a companhia ferroviária resolveu trocar a estação da cidade de lugar (coisa de cem metros) – construindo uma novinha com modernas instalações - a vida na cidade tinha se tornado um inferno.
Não bastasse o transtorno, o pó da demolição do casario que estava no lugar da nova estação, ainda tinha o barulho da obra e claro, os peões.

Sentados à hora do almoço por todos os cantos da nova estação, faziam às vezes de olhos, ouvidos e boca da obra.
Nada acontecia pelas imediações sem que eles soubessem e pior: comentassem.
A menina que é gerente da loja tomando um esculacho do namorado foi hit entre eles semanas atrás.
Hoje ela passa pela obra e não ouve os tradicionais assobios, mas um insistente e jocoso “cocóricó”.

Ao ouvir o sapateiro da rua reclamando que odiava o próprio apelido (o nome do homem é Baltazar, mas pelas costas todos o chamam de “cobra” que na verdade é uma simplificação para “engole cobra”) fizeram um simpático sambinha que é cantado toda vez que o indigitado aponta no inicio do quarteirão e só para quando dobra a última esquina: “-Cobra... Seu Baltazar cobra... Cobra o serviço que eu pedi/ Não é porque somos amigos que o senhor vai ter que engolir... Cobra, seu Baltazar cobra...”.

Nesta última semana o calor infernal que se abate sobre a cidade parece ter acirrado os ânimos. Houve até barraco.
O caso é que Batistão (que é prejudicado verticalmente) é casado com uma tremenda gostosona, - e por ser anão todos ficam melindrados ao dizer qualquer coisa à ele, o que não impede os comentários maldosos pelas costas.
O mais comum é quando passa o cotoco de gente de mãos dadas com o avião (abraçado não dá, a mulher teria dor nas costas) é: “-Macumba... Só pode ter sido macumba.”.
Outro comentário - que foi recebido com certa desconfiança pela comunidade local - foi exatamente do sapateiro Baltazar: “-Anão costuma ter bilau grande.”.
E quando os olhares se voltaram para o sapateiro: “-E o que dizem... Eu nunca vi... É o que dizem.” – tentava explicar ou consertar.
Mas o certo é que apesar das piadas ninguém podia dizer nada de concreto de Dinorah, a esposa do toco de amarrar jegue. Havia desconfianças, mas todos guardavam apenas para si. Alguns acreditavam sinceramente na devoção da gostosa pelo tampa de caçulinha.
 -É amor!– diziam – Só pode ser... O cara é feio, anão, pobre... Só pode ser amor. – diziam.

Mas quando Dinorah passava pela obra da estação os comentários não eram velados e cochichados, mas escancaradamente gritados.
“-Ô mulher econômica, até homem ela escolhe pela metade...” – ou – “-Vem ni mim (sic) que aqui não tem economia não...”.
Ela sorria... Talvez aquilo aumentasse sua autoestima ou... Vai saber?

Quando descobriu os gracejos, Batistão foi até o portão da obra e sem medir consequências chamou todo mundo pro pau.
“-Podem vir todos ai... Dou rabo de arraia em todo mundo!” – gritou.
Obviamente não desceu ninguém. Uma briga com alguém do local poderia despertar a ira em todos da comunidade e até acabar em demissão por justa causa. Além de – claro -saber que estavam errados.
“-Não vai descer ninguém é? Cambada de frouxo!” – disse vitorioso o piloto de autorama que girou nas solas dos sapatos e se encaminhou triunfante para o bar. Havia vencido a parada contra os maledicentes.
Pega então uma meia cerveja e volta para a porta do bar, com ares de superior.
Olha firmemente para o alto da futura nova estação e dá goles vigorosos em sua cerveja.
-Aê cambada de peão! Tão vendo esta cerveja aqui? É minha... Grita ai que é gostosa, que é econômica... Ainda assim vou tomar sozinho. Entenderam?
-É que é meia... – diz alguém em cima da obra sem se deixar identificar.
-Não entendi... – diz o anão.
-Você toma sozinho porque é meia cerveja.
-Não faz sentido. Cê acha que se fosse uma cerveja grande eu não tomaria sozinho?
-Não... Vai vendo. É como sua mulher.
-O que tem ela?
-Se fosse uma meia mulher, que nem você que é só meio homem, seria só tua...
Batistão até queria continuar a discussão, mas por azar (ou sorte) no começo do quarteirão aparece Baltazar e logo se ouve apenas o sambinha... “-Cobra... Seu Baltazar cobra... Cobra o serviço que eu pedi/ Não é porque somos amigos que o senhor vai ter que engolir... Cobra, seu Baltazar cobra...”